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O Nosso Mundo - Florbela Espanca

Eu bebo a Vida, a Vida a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno,
Poisando em ti o meu amor eterno
Como poisam as folhas sobre os lagos!

Os meus sonhos, agora são mais vagos...
O teu olhar em mim hoje é mais terno...
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

A Vida, a Vida, amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hêmos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...
O mundo, amor?... As nossas bocas juntas!...

Florbela Espanca in Perdidamente

Tarde No Mar - Florbela Espanca

A tarde é de oiro rútilo: esbraseia.
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,
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Pousa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue o seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia,
Desenha mãos sangrentas de assassino!
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Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...
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E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...
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Florbela Espanca

Ser Poeta - Florbela Espanca

Árvores do Alentejo



Árvores do Alentejo.

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!
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E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!
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Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!
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Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
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Florbela Espanca
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Foto retirada da net

Desejos Vãos


Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!
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Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu quero a ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!
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Mas o mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos céus, os braços, como um crente!
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E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras...essas...pisa-as toda a gente!...
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Florbela Espanca

"Ser Poeta"




"Quereis saber que é ser-se poeta?
Pois bem. Aqui vos deixo em breves traços:
É vaguear em sonhos p´los espaços,
Sem que o nosso ideal encontre a meta!

Querer ter a magia dum profeta,
Ter forças p´ra vencer nossos fracassos,
À ilusão e à vida dar os braços
Quando o Cupido atira a sua seta.

É descer aos mistérios das ravinas,
Desvendar horizontes nas colinas
E em tudo achar motivos de beleza!
Ser simples como as ervas pelo chão

E agradecer a Deus este condão,
Que é sentir dentro em nós a Natureza!” Antero Quental (1842-1891)
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"Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!" Florbela Espanca (1894-1930)

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