Frases

As coisas não o são antes de o serem.


PERFEITOS ESTRANHOS

(Parte IV)

ADEGESTO



A primeira vez que ela sorriu daquele jeito só seu fiquei encantado. Foi logo após o nosso segundo encontro. Tínhamos saído daquele nevoeiro e ficámos onde podíamos estar, num quarto enfiado nas traseiras de uma pensão de aspecto duvidoso. Assim que entrámos, eu acendi a luz e mal me voltei Maria estava lá, especada, olhando para mim. Os seus lábios rosados estavam bem esticados e firmes, bem fiel ao seu, e nosso, estado de espírito. Nesse momento, vi-a e julguei-a perfeita. E o mundo abalou. Maria estava a ser, aos meus olhos, aquilo que não desejava ser perante opinião alheia.
Devolvi-lhe o sorriso, mas vi no seu rosto que se tinha apercebido que o meu sentimento não era de felicidade total.
Ainda assim, aceitou-me como sou. Veio ao meu encontro, agarrou nas minhas mãos e envolveu-as em volta da sua cintura. Colou o corpo ao meu e eu senti toda a forma do seu tronco a moldar-se a mim, como se tivéssemos sido feitos um para o outro. Ela estava quente e os nossos olhares voltaram a cruzar-se. Foi um momento mágico, ainda mais do que quando o fizemos anos atrás. Senti o seu coração bater no peito, querendo saltar de dentro dela para se juntar ao meu, e apreciei o seu hálito doce sempre que expirava. Encostei o meu nariz ao seu e gemeu. As nossas caras bailaram uma na outra até que Maria me agarrou o cabelo com ambas as mãos. E beijou-me surpreendentemente. De repente uma energia apoderou-se de mim como eu nunca havia sentido. Era como se a massa do meu corpo tivesse deixado de existir de um momento para outro. Levitei em chamas e quase explodi de alegria. Pensei por momentos não aguentar tamanha intensidade.
Foi então que a língua de Maria se desprendeu da minha e eu abri os olhos. Ela sorria ainda mais e eu percebi que estávamos sentados no chão, numa posição estranha, como se as nossas pernas tivessem derretido, perdendo toda a força que costumavam ter.
Abraçados no chão, voltámos a beijar-nos enquanto nos despíamos lentamente. Ela lambeu as cicatrizes de cada pedaço de carne que eu dilacerei ao longo do tempo, como se as quisesse apagar de mim, erradicando-as de vez.
Por fim ficámos nus. O seu corpo tinha as curvas vincadas e o cabelo ocultava-lhe os ombros. Não resisti e puxei-a para junto de mim. Deixei-me cair de costas, trazendo-a comigo. Encaixámos um no outro, numa sincronia perfeita.
E partimos para outro mundo.
Aquele era um momento único que deveria ser eterno. Aquilo era o auge de tudo e daí em diante nada poderia ser como tinha sido.
Maria voltou a sorrir ao mesmo tempo que eu deslizei as minhas mãos pelo seu corpo, até ao pescoço. Envolvi-o mas não o apertei. Até que as suas mãos foram ao encontro das minhas.
E a minha vida ficou completa naquele instante. Quando os nós dos seus dedos suplicaram aos meus que fizessem o que tinha de ser feito.
Ela queria a diferença e eu dar-lha-ia.


***

2000 Seguidores

Esta semana alcançámos um número redondo e generoso de seguidores do blogue:


Obrigado a todos.

#Fandango de fim-de-semana#

A luta do momento é entre o Costa e o Seguro.
E é numa altura destas que o Passos pensa:
“vou pedir disfarçadamente aos meus amigos socialistas
que votem naquele cujo nome rima com maduro.”

Nas capas dos jornais pindéricos
só se vê que não sei quem matou não sei quantos,
quase tantos são estes títulos
como apostadores de acções em prantos.

Quase não dá para acreditar
que judeus e muçulmanos não se consigam entender.
Quem ri são os russos e os americanos,
com um stock ilimitado de armas para vender.

Claro que ainda temos de nos recordar da TAP,
que cancelou centenas de viagens.
Talvez seja uma boa estratégia,
dessa forma não falham as aterragens.

Chegou agora o calor,
mas no fim-de-semana já se vai.
É caso para dizer:
como estará o tempo em Xangai?




Temos para sortear mais uma grande novidade da Editorial Presença, um livro que anda a despertar muita curiosidade entre os leitores.


Para participar basta seguir as regras do passatempo e preencher o formulário.

Regras do Passatempo:
-O passatempo começa hoje, dia 30 de Julho, e termina às 23.59h do dia 6 de Agosto de 2014. 
-O participante vencedor será escolhido aleatoriamente;
-O vencedor será contactado via e-mail;
-Apenas poderão participar residentes em Portugal e só será permitida uma participação por residência.
-Ser Seguidor do blogue (para ser seguidor, basta clicar em “seguidores” na barra lateral direita)

-O blogue não se responsabiliza pelo extravio de livros.



Formulário

Boa sorte aos participantes!
PERFEITOS ESTRANHOS

(Parte III)

ELES



Ele dava pelo nome de Adegesto, como ninguém se chamava. Ela Maria, como muitas tinham como primeiro nome.
Durante dias e noites procuraram-se mutuamente, sem que nunca se tivessem cruzado sequer. Um raio de sol ofuscou a visão de um numa tarde solarenga, mesmo estando o outro do lado oposto da rua, a mirar num sentido contrário ao que devia. Um semáforo no caminho de Maria atrasou-a dez segundos na manhã seguinte, impedindo-a de chocar contra Adegesto. Depois foi uma tempestade, um atraso de um autocarro, um pedido de um vizinho, um café inesperadamente entornado, um troco tardiamente dado numa loja insignificante, um passo, um gesto, uma indecisão, uma decisão.
Eram almas atormentadas que se haviam cruzado uma vez, sem que parecesse, contudo, que tivessem o direito de se voltar a reunir.
Algumas Primaveras e Outonos foram passando sem que ambos desistissem. Nem o frio ríspido do Inverno, trazendo gelo e neve sem cessar, nem o calor tórrido do Verão, juntamente com a sua sede e as visões turvas que provocavam, alguma vez impediram que qualquer um deles saísse em busca do outro. A idade foi pesando e as roupas desgastando.
Rapidamente Adagesto percebeu que a sua vida, a qual nunca chegara verdadeiramente a começar, não seria mais do que aquilo que sempre quis que fosse: eterno sofrimento. Cada dia que passava revelava-se mais penoso do que o anterior, porque a esperança não chegava a desaparecer enquanto procurava a mulher desconhecida, mas a dor incidia um pouco mais de cada vez que a lua seguinte o visitava. E de repente, um dia, olhou-se ao espelho e mal se reconheceu. Estava magro, tinha o cabelo comprido, os cantos da boca haviam descaído e a sua pele perdera alguma da pouca cor que até então tivera. Nesse instante entrou em pânico e uma súbita vontade de desaparecer apoderou-se de si, pois se ele mal se reconhecia, como poderia a mulher que pretendia resgatar fazê-lo?
Maria, por sua vez, tinha o emprego mais tremido do que nunca, da mesma forma que o seu pensamento. E, sempre que podia, vasculhava por cada recanto da cidade, sempre em vão. Temia perder-se por entre as suas buscas sem que nunca mais se voltasse a encontrar.
Certo dia, escuro e estranho, chegou a casa exausta. Sentia-se frustrada e culpou-se pelo facto de ainda não ter encontrado o homem que procurara incessantemente. Num gesto irreflectido, bateu com a porta de casa e saiu, sem saber para onde ir. Simplesmente caminhou, sem rumo definido. Não tinha a consciência de onde estava quando decidiu que necessitava de ver mais além, porque certamente algo lhe fugira da memória, levando-a a procurar em locais que não devia, enquanto ignorava aqueles onde possivelmente o encontraria.
Pelas ruas da cidade antiga não passava ninguém. Só se escutavam cães que se queixavam pontualmente de algo imperceptível. O nevoeiro cerrado apenas deixava perceber um par de metros diante de cada passo. Os próprios tacões de Maria ressoavam como um enorme relógio que se faz sentir sempre que um segundo ultrapassa o anterior. O paralelo estava gasto e escorregadio e, não obstante a perigosa inclinação, prosseguiu por entre as casas fechadas, de paredes que havia muito tempo tinham sido brancas. Ao alcançar um passeio plano, deixando as habitações para trás, Maria avistou vários focos de luz. Aproximou-se e logo entendeu estar numa ponte de ferro, tão alta que a existência do rio que passava por baixo dela não seria uma certeza, não fossem os seus ouvidos a comprová-lo.
As águas corriam furiosamente e Maria continuou a andar até avistar um vulto negro, plantado no tabuleiro da estrutura. Noutra altura teria hesitado. Porém o medo não era algo que existisse dentro dela naquele momento. Caminhou, pé ante pé, numa passada segura, embora sem destino certo. O vulto tomou então a forma de um corpo rigidamente estagnado e voltado para o rio. As mãos estavam pousadas no parapeito que lhe dava pelos ombros e a cabeça mostrava-se inclinada para baixo.
Maria deu mais alguns passos e percebeu que a sombra se tratava afinal de um homem vestido de preto, cujo rosto se encontrava escondido por detrás da gola gasta e levantada do casaco comprido. Apesar de não captar qualquer traço do indivíduo, um brilho, ainda que ténue, despertou-lhe a atenção. Já o tinha visto antes, apenas por uma ocasião, ainda que com uma intensidade infinitamente superior.
Então Maria parou junto ao parapeito, a uma pequena distância do desconhecido, mas suficiente para escutar o seu arfar. Pôs-se em bicos de pés e encarou o rio. Nada viu para além do que se habituara a observar ao longo do tempo: vazio e escuridão.
Os dois ficaram estáticos por alguns segundos. Ela com a respiração mais acelerada e ele absorto como se continuasse só. Até que Maria falou.
“Finalmente encontrei-te.”
“Também me procuraste?”
“Não houve dia em que não o tivesse feito.”
“Da mesma forma que eu.”
“Porque não nos encontrámos mais cedo então?”
“Se calhar não estava escrito nas estrelas que tivéssemos de nos voltar a cruzar.”
“Mas estamos aqui.”
“Pois.”
“Ou talvez tenha sido um verdadeiro teste à nossa perseverança.”
“Como te chamas?”
“Maria. E tu?”
“Maria, um nome comum, aquilo que nunca fui. Chamo-me Adegesto.”
“Adegesto, um nome diferente, aquilo que nunca consegui ser.”
Os dois calaram-se como que sentindo o momento pelo qual haviam ansiado durante muito tempo.
“O que estás aqui a fazer, Adegesto?”
“Estou a pensar em atirar-me desta ponte.”
“Mas não tens asas. Morrerias.”
“A ideia é essa.”
“Se tu fores eu vou contigo.”
Ele meditou, pesando a afirmação que ela lhe havia feito. Maria aproximou-se e pousou a sua mão em cima da dele. Ambos se arrepiaram ainda mais do que quando tinham sentido pela primeira vez o vento cortante que soprava bem forte naquela ponte desprotegida.
“Agora que te encontrei, Adegesto, não te deixarei partir. Tenho a noção que percebeste que te amei quando nos cruzámos naquele dia. Sei que sentes o mesmo.”
“Como?”
“Simplesmente sei. Tu não sabes?”
“Sim, sei.”
“Então, não mais te largarei até que o meu coração deixe de bater.”
“Tu não compreendes. Eu gosto de sofrer. Não posso viver um amor no qual me alimentarei da dor que ele me causar. Esta é a minha sina, não consigo ser diferente.”
“Não faz mal. Pois eu sempre quis ser o oposto de tudo o que jamais existiu. Viveremos um amor só nosso, em nada igual ao que os restantes vivem. Será apenas meu e teu.”
“Não, Maria. Não te posso desviar da perfeição que és.”
“Óptimo. Perfeita foi tudo o que nunca quis ser. E, de qualquer forma, eu vou fazer-te sofrer.”
“Como?”
“Amando-te e permitindo que me ames. Julgo que não haja maior sofrimento do que temer a perda de alguém que se ame.”
“Talvez seja verdade.”
“Pois daqui em diante serei apenas tua.”
“Mas o que te posso dar em troca?”
“A diferença. És aquilo com que sempre sonhei, Adegesto.”
“Porquê?”
“Porque és diferente de todos.”
“Como sabes?”
“Como sabes que me queres?”
“Não sei, Maria. Apenas sei.”
“Exacto. A tua resposta é a minha.”
Adegesto voltou a palma da mão para cima pela primeira vez e apertou a de Maria com suavidade e alguma firmeza.
“O que faremos, Maria?”.
“O que os outros não fazem.”
“Do que viveremos?”
“Do que os outros não vivem.”
Ele suspirou. Não estava tão certo quanto Maria de que a relação resultaria. O sofrimento apoderara-se em demasia de si mesmo para poder encarar algo que não a dor, a morte ou a depressão.
“Achas que isso importa realmente, Adegesto?”
“Como assim?”
“Não importa. Se quiseres nadar naquela água atiremo-nos já desta ponte e viveremos dela eternamente. Se quiseres pisar a terra fixemo-nos nela onde tu quiseres e certamente floresceremos. Se quiseres voar por este ar pestilento basta que demos as mãos e fechemos os olhos. Não importa que o nosso amor dure um segundo ou cem anos, pois ele é real.”
“Eu tenho o meu lado negro.”
“Todos temos, Adegesto.”
“Gosto de me cortar.”
“Eu corto-te por ti.”
“Também gostas?”
“Até agora nunca experimentei, mas sempre quis ser diferente. Já to disse.”
“Não te quero forçar a nada.”
“Só não quero que me forces a andar atrás de ti. Não agora que te encontrei.”
“Nunca disse amo-te a alguém.”
“Não necessitas pois toda a gente o faz. Para além do mais, os teus olhos dizem-no por ti, Adegesto.”
“E se um dia o fizer? Causar-te-á algum desconforto?”
“Não.”
“Mas é o que todos fazem.”
“Mas contigo é diferente.”
Os dois encararam-se sorrindo. Pareciam ter alcançado uma espécie de acordo sem nunca o terem selado oficialmente.
“És estranha, Maria.”
“Óptimo, sempre quis sê-lo.”


***
PERFEITOS ESTRANHOS

(Parte II)

ELA



Sempre me senti estranha, vivendo numa cidade ainda mais estranha e permanentemente rodeada de gente com a qual não me identificava. Todavia não houve um único dia no qual não me tenha sentido normal.
Durante toda a minha vida gostei das mesmas músicas que a maioria apreciava, simpatizei com as pessoas de quem todos gostavam, usei o mesmo tom cor-de-rosa que as miúdas da minha idade vestiam e brinquei alegremente os jogos com os quais todos se divertiam.
Fui e serei sempre uma ovelha num rebanho. Rebanho esse preenchido por elementos todos eles da mesma cor, pois não havia um único que se revelasse negro como a célebre fábula que me habituei a escutar em criança. Não sei bem a razão, mas estranhava esse mundo no qual vivia, por sermos todos iguais, demasiado normais.
Por isso, ao sentir-me dessa maneira, fiz coisas que não quis. Roubei porque ninguém o fazia. Praguejei bem alto e por toda a parte, pois apenas ouvia palavras doces e melodias calmas. Sujei o que sempre fora imaculado. Reagi quando me deveria calar.
Gritei. Amaldiçoei. Desesperei.
E tudo porque me sentia normal.
Ser como os outros num local perfeito não é fácil. Não raciocinamos com identidade, não vivemos enquanto seres independentes. Isso sempre me deixou à beira do abismo, bem próxima de um estado de loucura que, transposta a barreira, o retorno seria inviável. Talvez o melhor para mim passasse pelo internamento num hospício, não fosse o facto de, até nesse local repleto de gente supostamente louca, tudo ser normal como em qualquer rua, lar ou espaço social.
Enquanto cresci este sentimento foi-se agudizando, quase destruindo cada célula do meu ser. Teimei ser diferente, mas nada conquistei. Esforcei-me por provocar olhares de ódio, conseguindo apenas miseráveis expressões de simpatia.
Tinha 15 anos quando rapei o cabelo, como os rapazes faziam, e mesmo assim eram poucos. Toda a gente riu, gabando a minha ousadia e o meu jeito rebelde. Fiquei quase desesperada, pois tornei-me ainda mais popular do que era, ainda mais normal no seio da comunidade.
Depois passei a vestir-me de preto e a maquilhar-me como nos filmes de vampiros. E a desilusão abateu-se sobre mim novamente ao reparar que metade dos meus amigos imitou a minha nova forma de estar, trazendo para a cidade uma moda que parecia que vinha para ficar.
Quando atingi a maioridade grande parte de mim mudou. Todas as hipóteses de deixar uma marca no mundo pareciam ter esgotado. Tudo tinha feito para ser vista como alguém que eu não era e nada parecia ter resultado. Foi então que pintei o cabelo, de cor clara como as bonecas que sempre estiveram em voga, voltei a vestir as cores femininas como todas as outras raparigas e sorri como todas sorriam quando um elogio me era dirigido.
Tornei-me vulgar como sempre quiseram que eu fosse. Dormi com os homens que queriam que com eles me deitasse, aceitei bebidas de quem me queria ver alterada, fui dizendo as piadas que todos esperavam ouvir e fiz todas as coisas indicadas que os momentos exigiam que eu fizesse. Nada recusei, tudo aceitei.
Esforcei-me por ter um bom emprego, porque isso faria de mim alguém normal.
Enquanto isso, cresci a vaguear pelas ruas, cinzenta como todos os que me rodeavam, esquecendo-me aos poucos de tudo o que sempre desejei: ser outra que não toda a gente. Os meus passos não eram rápidos nem lentos, eram apenas. Caminhava da mesma forma que todos o faziam, de olhar focado num ponto fixo no horizonte, mas acerca do qual eu nada sabia, pois não era onde verdadeiramente ansiava chegar. Mas de que valia pensar em algo que nunca chegaria a alcançar?
Vivi então, sorridente e airosa, fresca e agitada, até que o vi.
Ele estava especado a focar-me, como se eu fosse aquilo que sempre quis ser: diferente. Ele era colorido no meio de uma civilização pintada em tons neutros. Pensei que falasse comigo e, por um instante, ponderei parar e abordá-lo de alguma forma, dizendo o que pensava que sentia. Contudo ele manteve-se quieto, como se estivesse hipnotizado, e eu prossegui, temerosa e cobarde. Afinal só ele era colorido e devia ver-me, a mim, da mesma cor que toda gente, pois eu era, e sou, um deles; Afinal, movo-me com o rebanho, seguindo de um modo humilhante a sua orientação, sempre incapaz de contrariar a tendência.
Durante dias bloqueei e temi destacar-me da multidão. Pedi férias e depois baixa, e não saí de casa. Os dias tornaram-se um par de meses vividos numa angústia enorme, num medo atroz, receando tornar-me no que ele era e naquilo que eu nunca cheguei a ser. Mas não houve um único momento em que não tivesse sonhado em agarrar a mão daquele homem que aparentava ter a minha idade e nunca mais a largar. E partir. Correr sem parar, para junto dele, para longe de tudo.
Então, numa noite fria, ganhei coragem e decidi deixar tudo o que até então conhecia. O seu olhar continuava preso em mim, mesmo não estando presente, como se implorasse que o procurasse, a ele que nem o conhecia.


***
E quem ganhou o exemplar disponibilizado pela Editorial Presença "Jardins - 100 Imagens para Colorir" foi...

Rute Alexandra, do Barreiro.

Parabéns!
Depois de a Paula me ter implorado que lançasse um conto inédito da minha autoria aqui no Viajar, eu acedi.
Trata-se de um conto dividido em cinco partes, pelo que cada uma será lançada nos dias úteis desta semana.
Este foi o único conto que escrevi sobre algo parecido com o famoso tema “amor”. Foi das últimas que criei, já lá vai um ano e meio.


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PERFEITOS ESTRANHOS

(Parte I)

ELE



Eu sei que pode parecer estranho, mas sou assim.
Recordo-me de quando era pequeno. Sentia-me diferente nessa altura, ainda mais do que me sinto hoje, agora que já me habituei a uma excentricidade tão vincada que a oculto de tudo e todos, mesmo de quem me viu nascer, gente que sei tudo que faria para me proteger. Porém, temo defraudá-los, a eles, pelo simples facto de ter sido concebido a partir dos seus corpos, dos seus genes e dos seus sentimentos.
Hoje em dia assusto-me assim que me vejo ao espelho, assim como desdenho a minha voz quando a ouço numa gravação. Também costumo arrepender-me de todas as minhas decisões que não tenham sido primárias e envergonhar-me dos meus próprios gostos. Sei o que sentem os miúdos solitários que se escondem nas sombras que os recreios das suas escolas oferecem e os que carregam consigo uma qualquer deficiência física. Do mesmo modo, imagino como é a noite de quem não consegue dormir, apesar de o querer, ou de quem rouba por necessidade, não por prazer.
Sou assim.
Consigo, nos tempos que correm, lidar com isso e com o meu próprio fantasma. Basta para o efeito isolar-me de todos, fingir que não sou eu, longe de olhares alheios, afastado do choro que mal consigo suster. É complicado carregar ao longo dos anos todas as lágrimas que se foram acumulando, dia após dia, instante após instante. No início foi um pouco doloroso ser alguém que os outros viam, não alguém que eu teimava não ser. Todavia, com imensa vontade e determinação, tudo pode acontecer, excepto viver quando não se quer ou morrer quando isso é tudo o que desejamos.
Agora trabalho, finjo que rio, ingiro metade daquilo que meto no prato, vivo apenas o que tenho de viver, quase como se fosse obrigado. Aparento ser normal.
Mas nem sempre foi assim. Não.
Complicado era nos tempos em que os bonecos não deviam passar disso mesmo e as correrias pelos jardins, repletos de cheiros agradáveis, e pelos parques, cheios de alegria, supostamente se revelavam momentos puros. Para mim, porém, nunca o foram. Não sei a verdadeira razão, mas nunca chegaram a ser. A minha mente nunca foi virgem e nem por uma única vez as coisas foram porque tiveram de ser. Na minha minúscula cabeça tudo tinha de possuir uma razão. E isso foi o princípio do fim.
Fui-me amaldiçoando desde que me recordo de mim mesmo. Porque não era feliz, não rindo por dentro. Porque não brincava até à exaustão, nem entendendo a razão pela qual os meus pares o faziam. Porque não sentia florescer dentro de mim aquilo que os outros descreviam que acontecia com eles.
Ainda era pequeno quando, de noite, sentia conforto ao lidar com o mal. Não o mal ao querer o sofrimento daqueles que me rodeavam, mas sim o mal ao desejar a minha própria dor.
Estranho, bem sei. No entanto enquanto escutava as meninas defenderam a salvação de animais cruelmente abandonados nas ruas e os meninos ansiarem levantar estádios com os seus golos, eu apenas desejava sentir um desgosto, ou todos os que a vida me pudesse brindar. E foi nessa altura que rezei a alguma entidade suprema que me desse uma existência longa, apenas para que a mágoa me visitasse com força, para, aí sim, sentir a alegria que outros sentiam.
Depois comecei a imaginar que tragédias se abatiam sobre o meu ser, que o tecto desabava sobre  todos, e que os levava a eles, mas não a mim, para que pudesse chorar as suas mortes e sentir as suas ausências. Fui pensando também que um grave acidente me tinha lesionado para a eternidade, na qual olhares pesarosos se dirigiam na minha direcção, e eu sofria mais com eles do que com as minhas próprias limitações. Tentei sentir, noite após noite, o que era estar encarcerado, preso e entalado, longe de tudo e de todos e ser resgatado apenas quando a ilusão se havia ido.
Com os pensamentos vieram os actos. A dor mental passou a não ser suficiente para alimentar o meu instinto e comecei a cortar-me. Primeiro com facas, mas logo percebi que pequenas lâminas afiadas me satisfaziam de outra forma, pois a dor era mais aguda e o corte repetível por uma infinidade de vezes nos mesmos locais.
Hoje guardo essas marcas como se sempre tivessem sido minhas, e escondo-as por baixo das roupas que visto. São a história da minha existência. Como outros guardam álbuns e troféus de locais que pisaram, eu trago comigo, no meu corpo, a minha verdadeira essência.
Porque sou assim? Não sei. Apenas sou e desconfio que jamais deixarei de o ser.
E foi então que a vi.
Nela emanava uma luz que parecia ser própria como aquela que se liberta do sol. Deslizava pela calçada e o seu belo cabelo parecia voar em seu redor, sem nunca partir, onde, senti estranhamente na altura, eu desejava estar. Pela primeira vez desde que haviam desistido de mim, alguém me encarou com um olhar penetrante. E ela sorriu. E quando virou a esquina, estava eu especado e boquiaberto, voltou a olhar na minha direcção, enchendo-me com um calor que eu nunca havia sentido.
Nunca mais a vi, mas teimo em procurá-la desde então. Não há dia em que não o faça. Espero no entanto que quando isso acontecer não seja tarde demais e eu possa apagar todo o golpe que dilacerou a minha carne, assim como a alma, durante todos estes anos.
Sempre que saía, em busca da sua figura, algo em mim me fazia levitar, como se uma força invisível e inexplicável me arrastasse contra a minha vontade. Era sufocante, por vezes, mas a esperança tomava controlo sobre o meu corpo de uma forma como nunca nada o havia feito. Os dias eram, portanto, passados com quase-sorrisos e com o coração bem apertado, prestes a abrir-se quando os meus olhos voltassem a pousar nos seus. Eu vivia assim, nesse permanente estado de ansiedade, de um modo em que cada batida cardíaca acabava por se revelar em mim como um pequeno terramoto, a cada segundo, abalando-me violentamente, sem nunca me vergar porém. E na minha cabeça o futuro sombrio passava a ser como o das outras pessoas, luminoso e despreocupado.
A pior parte era quando a noite chegava e com ela a escuridão. Os meus fantasmas regressavam, e eu via o que sempre quis ver até então, mas que agora me magoava para lá do que era suportável. A esperança ia sendo lentamente substituída por uma espécie de resignação. Durante esse período de tempo que parecia interminável, o medo passou a tomar conta de mim, dominando-me por completo. Passei a chorar e a tremer de cada vez que o rosto que passei a amar vagueava pela minha mente.
Logo percebi que  um dia eu chegaria ao fim da linha. Só não sabia era para que lado eu haveria de tombar quando assim fosse. Tudo se definiria se o fizesse durante o dia ou durante noite, se o fim chegaria antes ou depois de voltar a ver aquilo que me mudara para sempre.


***

Bom dia!
Estamos com:




E vocês?
E quem ganhou um exemplar de "Morte numa Noite de Verão", da Porto Editora, foi...

Ana Catarina da Cruz Ribeiro, do Cacém!

Parabéns à vencedorA!

Running

"Running isn't always easy, but when you are done, you look back and think about all of the times you wanted to quit - but you didn't - and you realize your strength is far beyond what you imagined."

Li isto no facebook da marca Mizuno e eu não poderia descrever melhor a sensação.
Aqui está o meu par, um deles, da Mizuno, pois claro:


#Fandango de fim-de-semana#

Parece que hoje em dia
os aviões são como os ciclistas,
daqueles que andam pelo Tour,
caem como tordos e nem são safos pelos socorristas.

Que nem os alunos que ensinam,
também os professores estão a ser avaliados.
Mas se quem está acima deles fossem dentes
certamente estariam todos cariados.

Agora tem sido o tempo dos festivais,
onde a juventude vai para lá em euforia.
Mas foi antes de começar o concerto dos Onde Direction
que as miúdas entraram em histeria.

Descobriram uma fraude em subsídios de doença
e também por aqueles que (não) estão no desemprego.
Ah, mas isto acaba por não ser notícia
no mísero do país do desgoverno.

Desgraças e más novidades
é provavelmente aquilo que nos espera.
Boas-novas no fandango?
Talvez lá para a Primavera.

O blogue tem para oferecer um exemplar de ODD E Os Gigantes de Gelo de Neil Gaiman.
Para participar, basta seguir as regras e preencher o formulário.


Regras do passatempo:
Regras do Passatempo:
-O passatempo começa hoje, dia 23 de Julho, e termina às 23.59h do dia 1 de Agosto de 2014. 
-O participante vencedor será escolhido aleatoriamente;
-O vencedor será contactado via e-mail;
-Apenas poderão participar residentes em Portugal e só será permitida uma participação por residência.
-Ser Seguidor do blogue (para ser seguidor, basta clicar em “seguidores” na barra lateral direita)
-O blogue não se responsabiliza pelo extravio de livros.



Boa sorte aos participantes!

Promoções #7

Agora é a vez da Fnac, que no dia 22 e 23 de Julho tem mais de 2.000 livros a metade do preço.



Agradecemos a quem nos deixou esta informação que desconhecíamos.

Promoções #6

Na Wook, por 48 horas, para os aficionados de livros digitais.



Promoções #5

Só hoje e amanhã na Bertrand, com desconto directo de 40% a 50% numa selecção de livros bastante interessante.



Sinopse
De tronco nu e cabelo ao vento, Katrine Bratterud está eufórica: celebra a conquista de uma nova liberdade, agora que está prestes a terminar com sucesso um programa de reabilitação para toxicodependentes. Mas é no culminar dessa noite de furor e romance que Katrine se afasta para se refrescar num lago e morre brutalmente às mãos de um estranho, desaparecendo com ela os segredos que lhe trouxeram aquela felicidade recente.
Os inspetores Frølich e Gunnarstranda não acreditam em coincidências e, por isso, também não veem a morte de Katrine como uma mera questão de azar. Rapidamente mergulham numa série de investigações, cada vez mais profundas, que não descuram nem a vida de drogas e de prostituição de Katrine, nem tão-pouco as intervenções de médicos e funcionários na sua reabilitação.
A fúria do assassino oculto é desmedida e parece preparar-se para consumar novas mortes, num caso onde Katrine é a peça principal de um puzzle mais vasto e que remonta às suas origens.
Todos os homens que conheceu e amou são imediatamente suspeitos e só de uma certeza os inspetores podem estar seguros: uma mulher cativante e vulnerável como Katrine transforma até o mais reto dos seres em pecador.

Opinião
Fluido. Constante. Firme.
Este é um livro que segue uma estrutura típica de um policial e que se mantém fiel à forma fria e, de certo modo, distante ou mesmo ausente da literatura nórdica. Toda a narrativa é bastante regular, sem grandes picos nem alterações drásticas, mas que consegue manter o leitor permanentemente curioso e com todas as perspectivas em aberto.
K. O. Dahl não dá muito a conhecer das personagens, apenas aquilo que é necessário saber, nem divaga por campos desnecessários. Mas, a meu ver, essa opção é um pau de dois bicos, pois ao ganhar objectividade ao longo do enredo, perde um certo envolvimento emocional com quem lê a história.
O último terço do livro ganha algum destaque, à medida que o inspector se aproxima do final da investigação. Posso dizer que existe muita imprevisibilidade no desfecho e que o autor mostra agilidade e uma óptima capacidade em ligar as personagens umas às outras e no estabelecimento de uma relação entre o passado e o presente.
Trata-se de um bom policial.

Bom dia.
É o início da semana.
Nós estamos a ler:




E por aí?

#Nós achamos que...#

Eu, o Vasco, acho que andar de avião já não é tão seguro quanto isso, se bem que sempre tive medo de voar.
E...
Eu, Paula, acho que há voos que devemos sempre fazer independentemente da segurança!
Depois de termos divulgado este livro da Editorial Presença, demos conta de que muitas pessoas desconhecem que existem livros de pintar para adultos!!
Eles existem, como arte-terapia anti-stress!!!

Jardins - 100 Imagens para Colorir!



Com o apoio da Editorial Presença, temos um exemplar em passatempo. Para participar basta seguir as regras e preencher o formulário!

Regras do Passatempo:
-O passatempo começa hoje, dia 19 de Julho, e termina às 23.59h do dia 26 de Julho de 2014. 
-O participante vencedor será escolhido aleatoriamente;
-O vencedor será contactado via e-mail;
-Apenas poderão participar residentes em Portugal e só será permitida uma participação por residência.
-Ser Seguidor do blogue (para ser seguidor, basta clicar em “seguidores” na barra lateral direita)
-O blogue não se responsabiliza pelo extravio de livros.


FORMULÁRIO

Boa sorte aos participantes!
Robert Harris é, para mim, um autor obrigatório e eu estou ansioso por ler  o seu novo livro.


O Oficial e o Espião é um magnífico thriller histórico que recria de modo convincente um dos mais famosos casos de corrupção judicial.

Sinopse
Este romance baseia-se, tão ao gosto do autor, num caso histórico que ficou como exemplo de injustiça, corrupção e preconceito e em que se envolveram muitas outras personalidades históricas bem conhecidas. Trata-se do drama cuja personalidade central foi Alfred Dreyfus, acusado de ter vendido informações aos serviços secretos alemães, que foi condenado e deportado para Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Robert Harris narra-o na primeira pessoa, pela voz de um oficial de nome Picquart, uma figura discreta na vida real, mas que aqui se transforma na figura principal. Este personagem vem a descobrir a inocência de Dreyfus e persiste em repor a verdade dos factos, sofrendo com isso pesadas consequências. 

Citações
«Uma admirável história sobre poder, conspiração e idealismo.» | The Telegraph
«Esta recriação do caso Dreyfus é tão intensa e emocionante como qualquer romance de Frederick Forsyth ou de Ken Follett.» | The Guardian
«Robert Harris é um mestre do romance de espionagem.» | The Times
«Um exímio contador de histórias no seu melhor.» | Mail on Sunday
«Um livro soberbo… que justifica plenamente ser considerado uma obra-prima.» | Daily Mail
«Uma história empolgante… que beneficia largamente do talento narrativo de Robert Harris.» | Financial Times
«Robert Harris é um grande mestre do thriller político, e este livro revela-o em grande forma.» | The Press Association

«Uma leitura vertiginosa do princípio ao fim […] Não é necessário esperar pelo filme, que dificilmente poderá superar o livro.» | The Sunday Times

Também pensei

É óptima a sensação de não ser aquilo que não se quer ser.

Hoje pensei

Há dons para tudo. 
Mas o dom que mais admiro é o dom de saber estar calado. 
Que coisa mais maravilhosa.

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