Opinião:
Quando abrimos este livro e começamos a leitura, embarcamos logo num comboio com os personagens que nos irão contar esta magnífica história que oscilará entre as tradições e os “modernismos” a que o tempo leva inevitavelmente.
Assim, temos um diálogo no qual o personagem, pela voz de Tolstói relata-nos alguns dos seus pensamentos acerca da juventude russa, como vive, como sobrevive e como se mantém na sociedade.
Temos então, uma conversa entre dois homens, em que um limita-se a ouvir pacificamente, e o outro a contar (um diálogo que acaba por ser um monólogo). O que faz o relato, fala sobre a sua vida e o que lhe aconteceu por amar intensamente a esposa.
Ao falar da sua juventude, nota-se crítica e até alguma repugnância na vida que levou e na vida que levam os jovens russos. Pois, desde muito cedo têm experiências sexuais, chega a considerar os homens uns devassos pelos actos que praticam e posteriormente, nos grandes salões, passam por senhores e santos ao fazerem a corte às meninas da alta sociedade. Porém, as mães destas meninas não são menos devassas que eles porque sabem muito bem das atitudes desta juventude. Contudo, interessa-lhes o dinheiro. Assim, também elas não são superiores às prostitutas, só há uma coisa que as distingue, é que as senhoras da alta sociedade, na opinião do personagem e quiçá de Tolstói, são prostitutas respeitáveis e a longo prazo, pois têm por objectivo “vender” as filhas e usufruir, de alguma forma, da riqueza do genro.
Nota-se que algumas das ideias constantes nesta história, são também defendidas pelo próprio autor, pois na primeira fase da sua vida, Lev Tolstói viveu como vivem todos os jovens russos ricos: bebendo e divertindo-se. A partir de uma certa idade e depois de casar, Lev Tolstói vive um período angustiante na sua vida, na medida em que defende viver sob alguma modéstia e mais perto dos necessitados, no entanto continua rodeado de luxos (que a sua mulher não abdica) e esta situação atormenta-o. Daí eu ter sentido que toda a crítica à juventude russa expressa na narrativa, era uma crítica explícita e muito pessoal.
Mas voltemos ao livro e ao dialogo…
Ficamos então a saber que o nosso personagem cometeu um crime, matou a mulher porque julgou-a traidora (no livro não ficamos com a certeza de que tenha havido infidelidade). Magoado com a vida e até com a sociedade, critica a sociedade, o casamento, o divórcio (dizendo tratar-se de uma moda e de um mal europeu. O homem tem de subjugar desde cedo a mulher para que esta lhe seja sempre submissa). A sua crítica chega até aos grandes centros, na medida em que, na cidade “uma pessoa pode viver cem anos e não reparar que já morreu há muito e apodreceu” portanto, a dor da convivência sente-se menos.
O fim do diálogo é relatado com alguma dor, arrependimento, nostalgia e saudade.

Mais um excelente livro de Lev Tolstói, com um cunho muito pessoal ao longo de toda a narrativa.
Classificação: 6/7 Excelente

10 comentários:

    On 11 abril, 2011 im disse...

    Eu também já li esse livro e é realmente excelente, no início demora um pouco a andar mas depois quando se entra na trama é realmente excelente!

     

    Tolstoi era uma personalidade tão complexa! A vida, a obra...Confesso que me agarro á obra, mas sei que a vida dele foi única, a exigência moral dele enorme, com todas os excessos para um lado e para o outro.
    Boa escolha!
    beijo
    o falcão

     

    Olá Paula
    é um livro que eu não conhecia deste grande Tolstoi. Mas vou ler.
    Por um lado, depreende-se do teu comentário o lado conservador de Tolstoi e por outro o criticismo social que já lhe vimos em Guerra e Paz e Ana Karenina.
    E sabes uma coisa? Parece-me que a crítica social dele se mantem actual hoje, na nossa sociedade: o reino da hipocrisia. O moralismo como uma capa de decência que esconde toda a devassidão.
    Os "pecados" privados são sistematicamente escondidos pelas "virtudes" públicas. Vive-se para o exterior: para a mentira e a inveja.

     
    On 12 abril, 2011 Iceman disse...

    Tolstoi é, sem dúvida, um dos maiores vultos literários de sempre e, de facto, teve o dom de saber traçar para a posterioridade a sua época e mentalidade, algo que me interessa bastante.
    Também não conhecia este livro, mais outro para a lista, porém autores como Tolstoi estão sempre na lista.
    Bjs.
    Miguel

     
    On 12 abril, 2011 Iceman disse...

    Oh Manuel,
    a Humanidade tem um dom nato: seja há 5000 anos, seja agora, é e será sempre igual.
    A natureza humana não muda, por isso é que relatos como Tolstoi ou Eça nos parecem tão actuais.

     
    On 12 abril, 2011 Paula disse...

    É um livrinho pequenino, mas intenso!
    Iceman tens razão quando à humanidade...correm os tempos e somos sempre iguais :P
    Tolstoi é sem dúvida um autor a ter em conta!
    Vocês têm de ler este livro, tenho a certeza de que vão gostar :)

     

    É brilhante este livro! O primeiro que li do autor. ;)

     
    On 12 abril, 2011 Paula disse...

    Tons de Azul,
    Foi justamente por sugestão tua que comprei o livrinho :)

     
    On 13 abril, 2011 Argos disse...

    Olá Paula,

    A Sonata já conheco, fico-me com o "Eremita galego", será porque adoro a costa da Galiza, será pela minha "costela" galega?
    Depois de o ler digo-te alguam coisa!

    Abraço

     
    On 13 abril, 2011 Paula disse...

    Argos,
    Depois diz alguma coisa sim? para eu ver se leio :)

     

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