Guerra e Paz - Tolstói


Ao chegar ao fim do IV volume de Guerra e Paz, comecei a pensar como iria eu fazer um comentário a esta grande obra. É de facto e sem sombra de dúvidas uma obra prima da literatura.
É magnífico com Tolstoi, através das principais cinco famílias que compõem Guerra e Paz consegue atribuir-lhes características que acabam por abranger a diversidade humana.
Há nesta obra uma importante mensagem que Tolstoi quer passar sobre Napoleão, seus feitos e sua derrota. Eu achei que, neste aspecto, foi como se Tostoi tentasse repor uma verdade histórica para com a humanidade em geral e para com a Rússia em particular.
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A Rússia é-nos apresentada sob diferentes perspectivas que nos dão uma visão global da cultura e dos costumes da altura.
Uma sociedade que prima pelas aparências, onde as desigualdades sociais se fazem sentir de forma atroz. Os ricos são muito ricos pois vivem da exploração que fazem ao povo. O povo, este é muito pobre pois paga altas rendas aos nobres, acentuando, deste modo, a sua pobreza e miséria.
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Em contrapartida, em França, apesar de sobreviverem Clero e Nobreza, estes já não exploravam o povo da mesma forma, estas duas classes pagavam os seus próprios impostos, o povo detinha menos más condições de vida, uma vez que a nova burguesia investia e vivia do que produzia (comerciantes, industriais). Pelo contrário, a Rússia continuava mergulhada na servidão.
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Tolstoi, através dos personagens, Boris, Anatole Kuraguine, Vassili Kuraguine, Helena Duraguine, Anna Pavlovna mostra-nos a sociedade mesquinha e interesseira da altura. Uma sociedade parasita que apesar da guerra e das desgraças dos outros e dos seus próximos, reúne, dança, canta…
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A Classe militar também recebe críticas por parte do autor nesta obra, não os soldados. Estes são grandemente elogiados pelos seus feitos, pela sua bravura e coragem de enfrentar condições desumanas para combater e para se restabelecer.
A crítica, propriamente dita, recai sobre as altas patentes militares que não dando valor aos soldados menospreza-os. Esta classe, como refere Tolstoi é a única que encontra na ociosidade a felicidade “é precisamente nesta ociosidade que reside e sempre residirá o principal atractivo da carreira das armas”. Ao contrário do que acontece com o comum dos mortais que na ociosidade encontra sempre frustração e nunca felicidade.
Tolstoi, critica com toda a ironia que consegue fazendo também o paralelismo entre o que se come no campo (ervas que causam a morte aos soldados) com os manjares dos generais em grandes mesas, com grandes castiçais…
Salienta também que a guerra é feita por estas altas patentes de acordo com os seus próprios interesses. No entanto, no terreno, os soldados têm algo em comum: muitas vezes combatem por uma causa que não é a deles, vêem o inimigo soldado com um igual a si. Muitas vezes um mal estar apodera-se destas gentes quando ao desferirem um golpe no inimigo o rosto deste não mostra ódio, mas sim medo.
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À sociedade que aprecia e elogia pertencem, por exemplo, as personagens: Pierre Bezukov, Natacha Rostovna, Nicolai Rostov, Andrei Bolkonski, Maria Bolkonskaia e Sónia.
Alguns destes personagens (a maioria) sofrem uma mudança a nível pessoal e espiritual de acordo com os acontecimentos que lhes são afectos.
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Pierre Bezukov, no início do romance é visto como uma pessoa “perdida”, perdida no sentido de insegura, instável, incoerente que faz somente o que lhe mandam e que assim o faz porque tem de ser feito. No entanto, este personagem (um dos meus preferidos) transforma-se radicalmente no decorrer da história e acho que acaba mesmo por ser um dos personagens mais importantes desta obra.
Através de Pierre, Tolstoi mostra os seguintes aspectos:
-O ideal de amigo;
-como se pode entrar em dualidade consigo próprio por não encontrar lugar na sociedade, questionando, deste modo, a sua existência;
-dá-nos a conhecer a maçonaria;
-como a bondade pode ser aproveitada pelos maliciosos
-o sofrimento e injustiças da guerra, assim como o encontro com a paz interior, depois de muito sofrer e estar privado de tudo.
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Andrei Bolkonski, é-nos apresentado como alguém cujas acções são simples, vive uma vida simples e um casamento infeliz. Um nobre igual a tantos outros que vive do trabalho do camponês.
Contudo, esse personagem tem um evolução importante e de alguma forma rápida, passa de pessoa apática que encontra na guerra um meio para se evadir da vida social para uma pessoa cheia de vida e coragem que encontra na guerra o motor para esta disposição. No campo e com todas as dificuldades que encontra, dá valor à vida que tinha, à sua família, à segurança e à estabilidade. Assim torna-se uma pessoa consciente e muito ponderada.
Note-se que esta é uma ideia bastante presente em Guerra e Paz: através do sofrimento o homem cresce “Pensamos que, uma vez saídos do nosso trilho habitual, está tudo perdido; mas é só então que começa qualquer coisa de novo, de bom. Enquanto há vida, há felicidade”
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Nicolai Rostov é um dos personagens que muito me surpreendeu. Jogador boémio encontra na guerra paz e rotina, o que não tinha no seu meio social. No entanto, após salvar Maria Bolkonskaia, torna-se um homem responsável, maduro, ciente do que quer, um personagem que ganha bastante importância no fim do romance a par de Pierre.
Nicolai é pioneiro no que concerne a enaltecer o camponês: primeiro, o interesse do camponês, depois o do dono da terra, só assim o camponês trabalha com satisfação e consegue produzir para o patrão.
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Ao chegar às últimas páginas do último volume, constatei que Tolstoi reservou-as para cumprir a sua intenção com este romance: repor a verdade que os historiadores deturparam. Acho que é esta a mensagem principal desta obra.
Pois, Tolstoi ao longo de todo o romance e através dos seus personagens vai fazendo alusão a esta questão, por vezes, as palavras escritas usadas estão em maiúsculas e o seu ataque é duro e directo.
A crítica que tece, recai sobre a visão dos historiadores no relato das acções de Napoleão e na forma como estes senhores deturparam factos históricos ao explicarem a vitória da Rússia.
As explicações sobre a perda de Napoleão fizeram com que os créditos russos ficassem por terra. Napoleão não ganhou porque se constipou, as tropas não aguentaram o frio, o mau tampo que se fazia. Não houve o verdadeiro elogio às tropas russas pelo seu esforço, pelo seu empenho, que mesmo em número menor a sua vontade inata de ganhar foi superior ao exército francês e a Napoleão. O facto de os russos não terem esmagado os franceses numa grande batalha final, como muitos (Imperador incluído) pretendiam, não se deveu a incompetência de Kutuzov (responsável máximo pelo exército que Tolstoi admira) mas apenas ao facto de os franceses terem fugido e assim ter-se tornado absolutamente inútil provocar mais mortes e despesas.
Tolstoi tenta repor a verdade atribuindo o verdadeiro mérito quem realmente o merece: OS RUSSOS. Colocando Napoleão na posição de “insignificante instrumento da história
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Finda esta leitura que foi de 4 meses (1 livro por mês) ficam as saudades dos personagens: Pierre, Nicolai, Andrei e Natacha, os diálogos, as reflexões, enfim, tudo o que pertence à magnifica escrita de Tolstoi.
Um romance que recomendo, porém há que querer lê-lo ou então vai haver desistência, pois apesar de ser uma leitura apaixonante, não é de forma alguma uma leitura fácil
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Classificação: 7/7 Obra Prima

22 comentários:

    On 27 maio, 2010 Iceman disse...

    Cara amiga,
    excelente comentário!

    Conseguiste efectuar uma leitura analítica muito boa, algo que, hoje em dia poucos conseguem e a maioria não está para isso.

    Como já to disse, já li esta obra duas vezes e efectuei outras leituras faseadas. O meu personagem preferido é Bolkonski, penso que é um dos personagens mais fortes da obra e, segundo creio, o personagem onde Tolstoi se auto-retractou.

    Em relação ao que referes no fim, de Tolstoi ter querido repor a verdade dos acontecimentos, acredito plenamente nisso mas penso que Tolstoi quis ser mais violento em relação a Napoleão. Nota, na altura da escrita da obra, havia passado cerca de 50 anos das invasões, de certo Tolstoi cresceu a ouvir os seus pais a falar dessas invasões e seria natural que conhecesse a verdade dos factos, como se veio a provar. De certo constatou que o resto da Europa tinha ideia de uma versão diferente e, Guerra e Paz, vem desmistificar tudo, repor a verdade e mostrar o verdadeiro Napoleão que, diga-se, ainda hoje é hiper-valorizado, não foi o General que a História fala, era um homenzinho arrogante, vaidoso e falso. Teve sorte em estar na lado dos vencedores aquando da Revolução e foi subindo na escala militar.

    Outra questão que se me colocou quando li a obra foi da similaridade entre as invasões e derrotas dos franceses e dos nazis na 2ª guerra. Ambos foram derrotados pelo inverno. O Ser Humano, uma vez mais, prova que não aprende com a História e a queda dos arrogantes acaba por se efectuar de uma forma violenta.

    Para mim "Guerra e Paz" é o LIVRO!

     

    Eu estou agora a ler este livro :)
    E embora não possa dizer que é O LIVRO, já posso afirmar que é um dOS LIVROS da minha vida.
    Isto é fabuloso!
    Tudo o que vocês dizem, Iceman e Paula, é verdade. Concordo com tudo.
    E sobre Napoleão, ainda vos digo mais: as mulheres achavam-no feio :)
    Daqui por umas semanas voltarei cá para comentar com mais conhecimento de causa.
    Até lá, a quem ainda não leu, só digo: não sabem o que perdem!
    Ice, dizes Bolkonski, referes-te ao filho, certo? O meu preferido é Pierre. Revejo-me :)
    Um abraço.

     

    Paula, muito obrigada pela excelente crítica. A história, de facto, parece ser muito interessante, mas confesso que o seu tamanho me intimida... Mas definitivamente é um livro que vou querer ler!

     

    Eis uma daquelas obras que, de tão marcantes, são difíceis de traduzir em (outras) palavras... Mas ousaste e conseguiste. Li "Guerra e Paz" há algum tempo, talvez uns 10 anos, mas viajei e relembrei muito da minha leitura com o que escreveste. Apesar de ser uma obra monumental, sinto que ele merece ser relida.
    Abraços!

     
    On 28 maio, 2010 Iceman disse...

    Bolkonski o filho, sim.

    Fico a aguardar a tua opinião Manuel, antevejo-a muito boa.

    ;D

    Abraço aos dois.

     
    On 28 maio, 2010 Paula disse...

    Comentário da Tonsdeazul que por engano rejeitei
    "Isso é que foi uma maratona!
    É um dos livros que quero ler. Gosto imenso de Tolstói e brevemente quero adquirir esta obra.
    Gostei muito de ler esta tua opinião. "

     
    On 28 maio, 2010 Paula disse...

    Iceman,
    Obrigado :)

    Concordo contigo quando dizes que "Tolstoi quis ser mais violento em relação a Napoleão"
    Colocar Napoleão no seu devido lugar é sem dúvida um dos seus objectivos, acaba até por lhe chamar insignificante instrumento da história.

    Pierre, Natacha, Andrei, Maria cativaram-me bastante. A forma como Tolstoi constrói os seus persongens faz com que a relação personagem/leitor seja próxima :)

    E tens razão, Guerra e Paz é O LIVRO :D e tem de ser relido para ser apreciado de forma diferente,com mais calma, com mais reflexões.
    Uma releitura deve trazer idéias novas sobre a obra.

    Abraço

    Manuel Cardoso,
    Espero então pela tua opinião para trocarmos idéias.

    Landslide,
    Realmente são 4 volumes e aguns personagens, enchi um caderno completo com esquemas e idéias principais da obra. Quando reli o meu caderno, para fazer o meu resumo senti saudades dos personagens :)
    Quando te sentires preparada avança.

    Olá Eduardo :D
    Há algum tempo que não vinhas aqui (confesso que também nunca mais fui ao teu blogue, uma falha a colmatar :P)
    Uma obra a ser relida dizes, sem dúvida, nem que seja de forma faseada

    Tons de Azul,
    É uma obra que tenho a certeza vais adorar :D

    Abraços a todos

     

    Paula,
    A sua análise em relação aos livros de Tolsei está magnifica, mas não me parece ter "cabeça" para os ler... lol... Eu devia ser "castigado", pois trata-se de uma obra-prima! :P
    Tenho a série "Guerra e Paz" interpretado por um então muito jovem Antonhy Hopkins, esta série ainda está por ver... Se quiseres, posso emprestar-te.
    Quanto ao elogio sobre o novo look do meu blog, muito obrigado.
    Quanto ao livro "Perdidos na Amazonia", é realmente uma história deveras envolvente e emociante que me tocou imenso, mas que está muito longe de ser uma obra-prima como este. ;-)
    Bom fim de semana!
    Beijinhos

     
    On 29 maio, 2010 Paula disse...

    Devorador de livros,
    Olá
    Eu também já tenho Guerra e Paz há alguns anos em casa, mas este ano senti-me preparada :) Senti que a altura era chegada :D
    E foi uma leitura magnífica.
    Quando à interpretação de Antonhy Hopkins não conheço, mas vou pesquisar.
    Quanto aos perdidos na Amazónia, pelo que li no teu blogue é muito bom.
    Abraço

     

    Olho muitas vezes para eles nas livrarias, mas são tão caros que acabo sempre por adiar a compra... O facto de não ter achado o Anna Karenina nada de especial também não ajuda à decisão. Mas de certeza que o vou ler um dia, mais que não seja porque tenho de saber se o Tolstoi faz bom uso do meu nome, Natacha. :)

     
    On 29 maio, 2010 Paula disse...

    N. Martins,
    Ana Karenina é um dos meus livros preferidos, achei os personagens Ana e Levine personagens apaixonantes, Ana pela sua corajosa luta, Levine pelas suas dúvidas existenciais e por tudo mais que abarca aquele grande livro...
    Quanto ao nome Natacha :) Tolstoi atribui-lhe um personagem muito interessante com uma personalidade forte :)
    Abraço

     
    On 31 maio, 2010 Marcello disse...

    Olá Paula,

    Ler Tolstói é uma tarefa hérculea e ao mesmo tempo prazerosa.

    Saudações do Brasil.
    Bjs

     

    Acabei a minha leitura :)
    Globalmente concordo com a tua leitura, Paula, mas agora espera-me uma tarefa tão hercúlea como ler o livro: fazer o comentário.
    Diz-me tu, Paula, o que fazer com uma dúzia de páginas de apontamentos e transformá-los num texto, digamos, legível?
    :)

     
    On 01 junho, 2010 Paula disse...

    Marcello,
    Olá, uma leitura que não sendo fácil é muito interessante :)
    Abraço

    Manuel,
    Olha, eu enchi um caderno todo de apontamentos e confesso que mais umas folhinhas de outro. Quando foi para escrever o comentário, primeiro senti-me aflita, depois deixei-me ir :)
    Abraço

     

    Deliciei-me a ler os vossos comentários! A ver o entusiasmo com que falavam desta obra, como se de facto estivéssemos todos a falar do Piotr, do Andrei, da natasha ou do Nicolau como pessoas vivas...
    Não consigo deixar de gostar de todos! Tolstoi "reviu-se" em todos eles, cada um era uma parte dele... Mais próximo de Nicolau (era um Lev Tolstoi jovem) ou de Pedro Besukhov?, mas com tanto do Endrei Bolkonski!
    É bom ouvir-vos!
    O Anthony Hopkins foi sem dúvida um magnífico Pedro!
    Continuação de boa leitura tolstiana!
    Nunca é tempo perdido.

     
    On 27 abril, 2011 Paula disse...

    MJ Falcão,
    Esta é uma obra magnífica, como todos as as obras de Tolstoi :)
    Fico contente por teres lido os comentários sei que adoras o autor :)

     
    On 26 agosto, 2011 Anónimo disse...

    Comecei hoje o Guerra e Paz e estou a gostar (primeiras 20 páginas).De autores russos sí li Dostoiévski (Crime e Castigo, Irmãos Karamazov, O Jogador). Ainda não li nada de Tolstoi mas estou na expectativa se consegue bater, ou não, o Victor Hugo e os seus Miseráveis.

     
    On 27 agosto, 2011 Paula disse...

    Anónimo,
    Eu adorei Guerra E Paz, uma autêntica obra prima :)
    Quanto aos "Miseráveis" não li, primeiro porque li do autor "Nossa Senhora de Paris" e não gostei, depois porque Victor Hugo perde-se em divagações excessivas, mas isto é a minha opinião :D
    Espero que volte a visitar o blogue.

     

    Quero muito ler :)

    Mudaste a imagem do blogue amiga! Ficou lindo! Adorei!

     

    Quando o terminei de ler também me interroguei imediatamente como é que iria escrever sobre ele. Por um lado é um livro que não podia deixar passar despercebido, uma obra-prima. Por outro, e por isso mesmo, sabia-a que nunca lhe faria a justiça que merece. ainda assim tentei ;)

    Uma obra singular, que quebrou barreiras e se mantêm e manterá como um dos pilares da literatura.

    Cumprimentos.

     

    Em relação ao povo Francês, após as investidas de Napoleão iria experimentar níveis de pobreza abismais. O país viveu em condições miseráveis e não é à toa que o romance de Victor Hugo vai buscar essa palavra para título.

    Tolstói também reconhece o bom funcionamento da força militar e que tal só é assim porque esta funciona num esquema de pirâmide. Agora claro, em relação aos superiores é como tudo, enquanto Kutuzov teve uma apurada visão da situação, o mesmo não se pode dizer de muitos dos seus colegas.

     

    Olá Loot, realmente é uma obra única :) Foi um desafio esta leitura.

    De momento encontro-me a ler "Os Miseráveis" :)

     

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