Carlos Drumond de Andrade


Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espectáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drumond de Andrade

3 comentários:

    On 29 março, 2010 Anónimo disse...

    Lindo texto ^^
    Drummond eterno...

    bjs
    boa semana

    May
    :)

     
    On 29 março, 2010 B. disse...

    Belíssimo...

    Bjinhs

     

    Nossa! Estudei esse poema para o vestibular de 1998 e até hoje ele martela na minha cabeça. Estrofe por estrofe, letra por letra. Lembrando-me sempre do quanto a literatura é atemporal.
    Que bom vê-lo resgatado aqui!
    Abraços!

     

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