
Um dia destes, na Fnac, estava uma caixa com livros em promoção e por 2,50€ comprei "O Paciente Inglês" de Michael Ondaatje. Ainda olhei bem, para ver se estava enganada. Mas, não! Era mesmo 2,50 €.
Já tinha visto o filme, mas o livro supera-o de longe....
A História tem como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial em Itália, no Cairo e em acampamentos no deserto. Onde exploradores desenham mapas de expedição.
As descrições de Ondaatje são tão pormenorizadas que nos fazem viajar e acompanhar os personagens no desenrolar da história...
"Quando a virei todo o seu corpo estava coberto de pigmentos coloridos. Ervas, pedras, luz e cinzas de acácia combinados para a tornarem eterna. O corpo impregnado de cores santas. Só o azul dos olhos desbotado, tornado anónimo, um mapa nu onde nada se inscreve, nem a assinatura de um lago, nem o maciço escuro de uma montanha como a que se ergue a norte de Borkou-Ennedi-Tibesti, nem o leque verde-lima do ponto onde os braços do Nilo entram na mão aberta de Alexandria, a orla de África.
E todos os nomes das tribos, dos nómadas da fé que caminhavam pela monotonia do deserto e nela viam claridade, fé e cor. Do mesmo modo que uma pedra, uma caixa de metal encontrada ou um osso podem ser amados e alcançar a eternidade numa prece. É nesse esplendor desta terra que ela agora penetra, a que passa a pertencer. Morremos albergando em nós uma miríade de amantes e de tribos, de sabores que provámos, de corpos como rios de sabedoria onde mergulhámos e nadamos contra a correnteza, de personalidades como árvores a que trepámos, de medos como grutas onde nos escondemos. Quero tudo isso marcado no meu corpo quando morrer. Acredito nessa cartografia- quando é a natureza que nos marca, em lugar de apenas inscrevermos o nosso nome num mapa, como o nome dos ricos nas fachadas dos edifícios. Somos histórias colectivas, livros colectivos. Não somos escravos nem manogâmicos nos nossos gostos ou experiências. Eu só desejava caminhar por uma terra assim, onde não existissem mapas.
Levei Katherine Clifton até ao deserto, onde se abre o livro colectivo do luar. Estávamos no meio do rumor das nascentes. No palácio dos ventos.
O rosto de Almásy descaiu para a esquerda, fitando o vazio - os joelhos de Caravaggio. Talvez
- Quer uma injecção de morfina, agora?
- Não
- Quer que lhe traga alguma coisa?
- Não" ª
ª) in O Paciente Inglês, Michael Ondaatje
de 1 a 10 dou 10