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Joel Neto é o nosso convidado de hoje!! Quase dispensa apresentações, pois muito já se ouviu falar dos seus romances mais recentes: "Arquipélago" e "A Vida no Campo" são obras que têm sido muito discutidas e divulgadas! É Açoriano, natural de Angra do Heroísmo e escrever sempre foi uma prioridade. 
O Joel, traz-nos um livro que o marcou e que também é um marco na história da literatura - Gente Feliz com Lágrimas de João de Melo.






“A miséria, sendo muito outra, era só coisa de espírito. Crescia no coração dos meus pais, como a hera dos muros ou o trevo nos pastos, e chamava-se avareza. O pão endurecia durante quinze dias e ganhava bolor – porque o forno gastava lenha! O leite que devia calcificar-nos os dentes e os ossos era para vender à fábrica: depois ficávamos a implorar uma fatia de pão de trigo com manteiga de vaca,uma lâmina de queijo com pão da loja à merenda, e nada: segundo a mãe, isso era comida de ricos.” 

Completaram-se já vinte e cinco anos sobre a publicação original de “Gente Feliz Com Lágrimas”, e as edições já ultrapassaram as vinte e cinco também – fora traduções. O livro venceu o Grande Prémio Romance de Novela APE de 1989, batendo o favoritíssimo “Missa In Albis” (Maria Velho da Costa), e mantém-se não só um dos mais importantes da literatura centrada no imaginário açoriano, mas uma das minhas primeiras e mais incontornáveis referências, como escritor e como homem. Alguns dos mais importantes louvores declararam-no herdeiro do chamado realismo mágico, à maneira de García Márquez ou Scorza e, antes destes, Uslar Pietri. Sê-lo-á, porventura, no modo como transporta para os Açores dos anos 1950/1960 uma parte da atmosfera fantástica – embora mais no domínio do estranho do que do maravilhoso – que povoou boa parte da melhor literatura sul-americana desse mesmo período. Quanto ao resto, dificilmente haverá alguma coisa de mágico no arquipélago de João de Melo,
a não ser eventualmente a paisagem e – essa, sim – a experiência da linguagem, pisando a cada instante os territórios da poesia. Falamos sobretudo de um marco colossal da literatura portuguesa do século XX – o século do povo e da fuga – e, seguramente, da mais importante referência da literatura das ilhas desde (pelo menos) “Mau Tempo no Canal”. Em causa está, agora, não já talvez esse princípio nemesiano de que, para o povo dos Açores, a geografia é tão importante como a história, mas muito mais a ideia universal e universalista de que cada homem é uma ilha, partilhada também notoriamente por Saramago. O que não deixa, em todo o caso, de constituir um discurso sobre a geografia e a sua relação com a história, aqui interiores e amalgamadas numa só impressão não totalmente definível. Numa São Miguel escondida por detrás das montanhas, num lugarejo de onde não se vai a Ponta Delgada mais do que uma vez ao ano, três irmãos suportam uma infância de brutalidade e carência, às ordens de pais frequentemente desterrados num mundo só deles. Proporcionam-se-lhes, em diferentes momentos da adolescência, fugas distintas: a vida monástica à rapariga, o seminário ao mais novo e o exército ao mais velho. À sua maneira, cada um se encarregará de detonar também essa escapatória – e todas as três vidas acabarão por redundar em mosaicos particulares de sucessivas evasões. Em pano de fundo estão, à vez, a impossibilidade de permanecer ali mais um instante que seja, entre homens brutais só esporadicamente capazes de um gesto de ternura, e a tentação do regresso, menos como evasão aos homens mansos só esporadicamente capazes de matar, tantas vezes íntimos das grandes cidades, do que à procura daquilo que ficou por dizer, da possibilidade não manifestada antes. A emigração, imposta ou não, é porém tragédia igual para um pescador levado para Massachusetts como para um bolseiro bem instalado em Princeton. Deixa as suas marcas indeléveis e inapagáveis – e intromete-se nas leis da termodinâmica. A infância é irrepetível, no espaço como no tempo, e a circunstância virá a baralhar os dados à disposição de Nuno Miguel, Maria Amélia e Luís Miguel. Ecos de Freud insinuam-se quando Nuno, personagem principal, dá por si a mimetizar atitudes recorrentes do pai, o primeiro algoz da sua infância. Todo o mal está na família, como todo o bem também: ela leva-nos ao colo e é a bola de ferro presa ao nosso pé. O poder do progenitor permanece, por isso, inexpugnável, e lidar com esse poder uma missão para concretizar à primeira tentativa. Nuno Miguel falhou e acaba por transportá-la ao longo da vida toda, incompleta. Incompleto. Um romance monumental – eis o essencial. Do título à nota com que encerra, e mesmo se nem sempre é fácil encontrar-lhe a melodia. Ou precisamente por causa disso. Narrativa polifónica, feita de fragmentos e memórias descontínuas, a cada instante determinada a somar centros de consciência, “Gente Feliz Com Lágrimas” mantém as costuras à vista, e talvez seja essa a sua suprema virtude. Escrito na primeira pessoa (embora, de certa maneira, o discurso de Marta sobre Nuno Miguel, o marido, constitua mais uma declinação para o ladrilho modernista), de modo a que, a dada altura, as personagens possam confundir-se umas com as outras – e o escritor com elas –, combina imagens de profunda riqueza com metáforas menos concretizadas e frases de métrica escorreita com rimas aparentemente a despropósito, numa opção técnica que, mais do que emular o modo atabalhoado de pensar das pessoas verdadeiras, convocando os princípios do chamado fluxo da consciência, constitui o rosto da sua visceralidade e do seu sangue. “A dor é assim uma nuvem perdida, e vem de dentro para fora. Por um instante, sente que ela se afia em si, num qualquer órgão inlocalizado do corpo. Depois é como se se tivesse convertido numa lâmina cega. Uma lâmina que se desloca de mansinho entre a pele e a carne, ou entre a infância e a ferida que agora se põe a boiar e depois se lhe atravessa toda no olhar.” Eis, pois, o grande enunciado “também” – e perdoe-me João de Melo se pareço acantoná-lo, coisa que ele nunca pretendeu nem merece – de muito do que fora antes dele e de outro tanto do que seria depois a literatura açoriana, de Antero a Cristóvão de Aguiar, de Roberto de Mesquita a Daniel de Sá, de Nemésio (sempre ele) a Dias de Melo, de Natália a Álamo Oliveira e de tantos outros a tantos mais ainda. O grande manifesto identitário de uma geografia que é, antes do mais e por direito próprio, um olhar sobre o mundo.

Joel Neto


Opinião da Paula:
Com esta obra, Joel Neto mostra-nos o que aprendeu no campo e sobretudo o que o campo lhe ensinou.
Um livro escrito em forma de diário que nos vai relatando a vida - a vida tal como ela é! A simplicidade da natureza e a complexidade das relações (pois tal como o autor refere, a certa altura, não importa para onde vamos, jamais poderemos fugir ao Homem) as relações terão sempre caminhos escusos.
Ao longo da leitura, damos conta de várias temáticas, como os sonhos de gente simples, as amizades que se travam, a transformação da criança no adulto com a "morte" da inocência...
Como açoriana que sou, sorri a cada palavra, a cada parágrafo, ou porque vivênciei, assisti, ou porque ainda hoje passo por situações ali retratadas. Mas uma coisa é certa, há momento que apreciamos e que queremos que fiquem connosco para a vida, porque a nossa maturidade é outra, porque existiram outras realidades e sabemos aproveitar aquela ao ponto de a desejarmos eterna!
Aconselho, até porque para além de tudo o que eu já referi, o cheiro a mar e a terra chegam até nós, através das palavras de Joel.

Opinião do Vasco:
Este livro é uma espécie de reflexão e de diário em simultâneo. Parece até um livro que se destina ao próprio autor e às suas gentes, ao seu intimo e àqueles que partilham de uma mesma ideia.
Quanto ao que eu senti, o que posso dizer? Aceito a sua paixão pelo Açores e chego a compreendê-la. Aceito de igual modo todas as suas divagações pela vida, pelos costumes, pela sociedade, pela humanidade. Contudo, não posso assumir que me identifiquei com as palavras de Joel Neto, pois elas são, para mim, demasiado distantes. A mim, aquela vida e aqueles dias, vividos num lugar que não é o meu, não me trazem qualquer grau de cumplicidade e de empatia.
Não retiro o mérito à escrita de Neto nem à sua criatividade. Mas "A Vida de Campo" simplesmente não é uma leitura para mim.

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